Shania Who?

Shania Twain é cantora, compositora, produtora, atriz e escritora canadense, e um dos grandes nomes da música country no mundo todo. Atualmente possui seis álbuns que, juntos, ultrapassam 100 milhões de cópias vendidas.

“Essa é minha chance de fazer algo puro.” Shania Twain fala sobre o processo de criação de seu novo álbum

Faltam exatos 09 dias para o lançamento do novo álbum de Shania Twain, “Now”. Enquanto os fãs ainda aproveitam as faixas já liberadas e esperam ansiosamente por todas elas, a cantora, aproveita sua turnê de divulgação para explicar sobre o processo que levou à composição, gravação e produção do álbum.

É realmente sobre mim, dizendo tudo o que estava no meu coração e na minha mente“, disse a cantora durante a primeira “listening party” do álbum, ocorrida em maio deste ano.

Mais recentemente, a cantora falou sobre os medos e sobre a necessidade de confiança para o próximo projeto. Neste álbum, pela primeira vez em sua carreira, a cantora não teve o apoio de seu ex-marido e ex-produtor Robert John “Mutt” Lange, e expôs sobre a decisão de compôr todas as músicas do álbum sozinha.

“Nos últimos 15 anos, trabalhei com a mesma pessoa. Agora, de repente estou sozinha. Estava começando de novo. E não sabia por onde começar. Eu não conhecia ninguém com quem eu trabalhei há mais de 15 anos. Eu apenas não sabia o que fazer.”

Em entrevista à Rolling Stone, Shania contou ainda sobre o processo que a levou dos palcos do Caesars Palace até o estúdio e o que espera com as novas músicas. Confira a tradução completa da matéria:

Em maio deste ano, Shania Twain apresentou prévias de seu tão esperado novo álbum para a imprensa em Nashville, declarando ao grupo que não tinha certeza de como o mundo da música a receberia. Twain, abertamente, apresentou o novo álbum como uma reflexão honesta de sua vida no momento, reconhecendo que talvez não fosse o que todos estavam esperando. “É realmente sobre mim, dizendo tudo o que estava no meu coração e na minha mente”, disse na época.

O álbum, intitulado “Now”, chega no dia 29 de setembro, 15 anos depois de seu antecessor “Up!” – e logo depois de alguns problemas pessoais. Mais notavelmente, seu divórcio com o marido e parceiro de longa data Mutt Lange, com quem ela tem um filho de 15 anos, Eja. Lange teve um caso e, eventualmente, casou-se com a amiga de Twain, Marie-Anne Thiebaud. Em uma troca digna de novela, a superestrela e o ex-marido de Marie-Anne, Frederic se apoiaram um no outro, se apaixonaram e também se casaram. Mas o estresse resultante da situação, fez com que Twain fosse diagnosticada com disfonia – uma condição que afeta o controle das cordas vocais – a qual ela descobriu que também vinha de complicações da doença de Lyme.

Com terapia, Twain voltou a se apresentar – primeiro na residência “Still The One” de dois anos no Caesars Palace, e mais tarde na turnê “Rock This Country” – e gravou algumas das canções que compôs. Ela aprendeu a se adaptar às novas limitações. “Minha voz nunca mais será a mesma, eu duvido muito”, ela disse à Rolling Stone Country, em Nashville, várias semanas depois. “Eu já passei por muito trabalho e, quanto mais velha você fica, mais difícil, na verdade.”

Uma das coisas que ajudaram a tornar Twain a maior estrela country da segunda metade dos anos noventa – isto é, além do fato de que suas músicas eram ridiculamente inteligentes e avançadas – foi a forma como ela projetou a força de uma sobrevivente, tanto através de suas gravações de sucesso quanto das circunstâncias sobre as quais ela triunfou para alcançar a grandeza. De sua infância horrível em Ontário, no Canadá, até as trágicas mortes de sua mãe e padrasto em um acidente de carro e ter que cantar para sustentar suas irmãs, Twain sofreu abandono e luta desde o início. Ela é um exemplo de superação das circunstâncias, mas seus problemas vocais e sua longa ausência dos holofotes foram inteiramente novos obstáculos a serem superados.

Swingin’ With My Eyes Closed”, a faixa de abertura de “Now” aborda algumas dessas trepidações no clássico “estilo Shania”. Começando com uma introdução que lembra “Any Man Of Mine“, ela rapidamente se instala em uma batida reggae. Ela canta sobre enfrentar a incerteza e ter que balançar os punhos mesmo quando não se está necessariamente preparado. Twain escreveu todas as músicas de “Now” sozinha (primeira vez sua carreira), somado à organização dos vocais e das harmonias. Ela trouxe uma fila de produtores matadores – nenhum deles habituais à Nashville – com Ron Aniello, Jacquire King, Jake Gosling e Matthew Koma, cujos créditos incluem Bruce Springsteen, Ed Sheeran, Kings of Leon e Zedd.

Como Twain insinuou, o álbum não soa como suas gravações bem-sucedidas da era Lange. Ela se estende de forma estilística, flutuando entre o pop da época de Dido (em “Light of My Life“), folk-rock (“Home Now“), baladas tipicamente country (“Who’s Gonna Be Your Girl“) e até mesmo com um dance com sabor tropical (“Let’s Kiss and Make Up“), cantando sobre encontrar o caminho através da adversidade e superar o desgosto. Ela faz várias referências à traição (“Me matou que você dar sua vida para estar com ela”, ela canta no single “Life’s About to Get Good“) que poderia ser facilmente lido como uma referência ao seu divórcio, mas Twain é inflexível quando diz, “não é um álbum de divórcio”.

Em vez disso, é o som de uma animadora global encontrando seu fundamento em terrenos quase incomuns, recalibrando seu estilo para um público que é ainda mais fragmentado do que quando ela misturou o country e o pop no final dos anos noventa. Mais do que isso, é o som de uma mulher que se recusa a ser impedida.

Na apresentação do álbum em maio, você abordou a relação de trabalho que você teve com Mutt, dando crédito a ele pelo seu desenvolvimento artístico. Mas você disse que se sentiu “desprovida de sua própria identidade” quando as pessoas lhe deram o crédito pelo que vocês conseguiram juntos. Por que você acha que foi assim?

Porque Mutt foi o produtor. Eu era mais como uma placa de som para ele e ele queria que fosse muito verdadeiro para mim também de forma estilística. Ele foi um excelente parceiro e acho que ele realmente trouxe o melhor de mim de muitas maneiras. Mas não sendo independente – o que significa que estávamos colaborando, confiamos um no outro por nossos pontos fortes – eu não estava abrindo minhas asas da maneira que eu teria feito se eu estivesse sozinha. Não foi realmente uma crise de identidade, mas é como esse sentimento de quando se é a mãe de alguém e não te chamam pelo seu nome. Você é vista como “a mãe de Eja”.

Você também disse algo no evento sobre como você se considera parte do setor de serviços, o que parece um gesto muito populista. Se você está servindo o consumidor, há espaço para criar arte?

Eu não estou servindo o consumidor. Não é assim que eu olho para isso. Os comediantes, por exemplo, são escritores e artistas intensos. Eles são muito parecidos com compositores e com qualquer tipo de artista. Os comediantes que escrevem seu próprio material sofrem ao escrever coisas para fazer rir. Eles têm um propósito por trás de sua escrita. Então, meu propósito é fazer o mesmo. Estou procurando uma resposta emocional. Estou procurando por uma conexão.

Você tirou uma longa pausa de gravar e se apresentar em meados dos anos 2000 e lentamente fez seu caminho de volta até lançar um novo álbum. Qual foi a faísca que manteve as coisas fluindo com o “Now”?

Senti a coragem suficiente para experimentar a residência no Caesars Palace em Vegas por dois anos. Esse era um ambiente muito controlado, então eu tive coragem suficiente para entender isso. Foi um sucesso e você pensa, ‘Whoa, eu posso fazer isso. Agora, deixe-me adicionar uma turnê e ver se posso fazer isso em um cenário de viagem. Então eu fiz uma turnê e isso funcionou muito bem. Houve uma construção de confiança ao longo do caminho e as composições estavam em andamento, então eu só pensei: “Bem, a única outra coisa a fazer agora é enfrentar um álbum de estúdio [risos] e ser a cantora de todas essas músicas que eu escrevi”. Essas músicas eram tão pessoais que senti mais forçada a cantar sozinha. E naquele momento cheguei em um bom ponto para entender minha voz e aceitar os obstáculos e como contorná-los.

Você fez um ligeiro retorno em 2011 com “Today Is Your Day”, estrelado pela minissérie “Why Not? Com Shania Twain” no canal OWN. Como os problemas vocais afetavam você naquele momento?

Houve três gravações que fiz durante esta fase de realmente não ter minha voz ainda. Foram o dueto de Michael Bublé para “White Christmas”, depois “Endless Love” com Lionel Richie e “Today Is Your Day”. Eu a chamo de música mascote da série. Mas o esforço que eu tive que fazer para conseguir aqueles vocais – minha voz – em um momento onde eu podia fazer isso, não tinha como ter uma carreira de gravação com todo aquele esforço. Não valia a pena. Foi uma quantidade louca de trabalho psicológico e físico. Eu precisava fazer aquilo ser menos trabalhoso e menos doloroso para ter uma certa alegria em cantar e conseguir equilibrar o esforço e a recompensa. Foi o que aconteceu realmente nos últimos dois anos, e foi aí que as músicas realmente se concentraram nas músicas do álbum.

Quer dizer, você começou a ver quais músicas pertenciam ao novo álbum?

Exatamente. Havia muitos pedaços que não tinham concluídos. Nos últimos dois anos, estive trabalhando as músicas para este propósito específico deste álbum.

O que você notou quando as peças realmente se juntaram?

Para mim, era tudo questão de equilíbrio. Eu não queria que todo o álbum fosse miserável. Eu não queria que todo o álbum fosse uma pancada. Eu queria que o álbum fosse diversificado e desse uma boa extensão de todas as coisas que experimentei na minha vida, de verdade. Nunca escrevi um álbum sozinha antes. Nunca escrevi um álbum que não tenha sido colaborativo ou não influenciado por outro pensador, por outro coração. Então, esta é a minha chance de fazer algo muito, muito puro.

É interessante ouvir você testar tantos novos estilos, desde o reggae até o tropical house em “Now”. Você parece estar bem ciente das mudanças estilísticas no pop.

Estou experimentando mais com as batidas. Provavelmente mais por influência do meu filho. Ele tem 15 anos, eu sempre estou ouvindo as coisas que ele está fazendo, trabalhando e ouvindo. E eu adoro a dança também. Adoro música feliz. Isso definitivamente se arrastou mais. Então, há mais disso agora do que o rock mais pesado em meus álbuns anteriores, que Mutt e eu adoramos. Mas neste, há algumas coisas mais claras do que eu fiz no passado.

Por que era importante para você escrever o álbum inteiro sozinha?

Mesmo quando eu estava percebendo que talvez eu pudesse gravar outro álbum, o medo era: “Por onde eu começo?” Nos últimos 15 anos, trabalhei com a mesma pessoa. Agora, de repente estou sozinha. Estava começando de novo. E não sabia por onde começar. Eu não conhecia ninguém com quem eu trabalhei há mais de 15 anos. Eu apenas não sabia o que fazer. Eu estava perdida. “Home Now” é um reflexo desse sentimento de estar perdida e simplesmente não saber o que fazer e aonde ir. Então, demorou um tempo para construir coragem para compartilhar as músicas. Uma vez que comecei a compartilhá-las, as demos apenas com a composição, as respostas foram realmente poderosas e pensei: “Sabe, eu vou tentar fazer isso sozinha. Vou escrever as experiências e emoções mais honestas que eu puder nessas músicas”.

Ele se encaixa com as coisas que já conhecemos sobre sua história: sobrevivência e perseverança, por mais que seja difícil.

E é aí que está a força. É interessante tocar músicas como “Poor Me” e “Who’s Gonna Be Your Girl”, há algumas dessas. Mas a força é compartilhar, encontrar a força para compartilhar. Este é um tipo diferente de força. É mais uma coragem pessoal, compartilhar sabendo que a maior importância é compartilhá-la – que é mais valioso para os outros do que simplesmente manter isso para mim.

Você pensa no álbum como um lançamento country, ou é algo mais amplo?

Eu acho que há uma influência absoluta do country no álbum, sem dúvida. Mesmo “Life’s About To Get Good”, tem um pouco da batida disso. Acho que sou o que sou, e não tenho certeza do que é. Tenho certeza de que alguém já deve ter descoberto por todos os álbuns. Não sei se isso é importante. Os fãs são muito diversificados também. Eu acho que eles esperam isso. Eles só esperam a mim e muita personalidade na música. Música de qualidade.

Você sente que tem alguma outra coisa a provar neste momento?

Tenho uma profunda necessidade de autossatisfação. Essa foi uma grande parte da escrita por mim. Eu precisava satisfazer essa independência. Eu acho que vou fazer isso a partir de agora, fazendo coisas que são realmente satisfatórias. Isso faz com que tudo valha a pena. Isso faz com que o trabalho que eu levo para manter essa voz controlável valha a pena. O trabalho que leva para ser cantora para mim é muito. Deve ter satisfação aí. Tem que haver uma recompensa.

Jon Freeman
ROLLING STONE

Publicado por Diego Brambilla

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